Tempos exacerbados

A exacerbação dos dias de hoje é avassaladora. Inquieta e provoca medo. Vem por todos os lados. À esquerda e à direita. Para o bem e para o mal. Não há mais sossego. Muito menos reflexão. Não se relaxa. Tudo é para ontem. Tudo é intempestivo. Tudo vira um debate sem fim e sem sentido. Criamos um distanciamento assustador de uma conversa natural. Há que se ter opinião sobre tudo. Desaprendemos o diálogo, o bate papo leve e solto, sem amarras. Há que se condenar. Ou absolver. Há que se dominar. Não acatar. Há que se ter recompensa, mesmo fazendo o justo, o que é de direito e dever do cidadão de bem. Há que ser dono da verdade.

Nessa roda viva crucial, a vontade de ser uma “metamorfose ambulante” e não “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, como diz a canção de Raul Seixas, certamente é libertadora. “Dizer o oposto do que eu disse antes”. Observar o processo. Não embarcar em qualquer carona, qualquer ideia, qualquer discurso. Cultivar o tempo, exigir mais, aprofundar o pensamento, solidificar as relações, buscar respostas possíveis para uma realidade complexa. Sair fora da superficialidade, das respostas prontas e das falsas facilidades das redes sociais. O imediatismo não leva a nada. Não resolve. Não sedimenta. Não cria raízes. Mas é dele que nos alimentamos!

Depois de alguns dias completamente caseiros por conta de uma crise alérgica respiratória profunda, saí para a rua, ainda zonza, no final da manhã da última quarta-feira, 9 de maio – para a tão necessária terapia. Tomei um ônibus. E o que vi e ouvi em poucas quadras, em pé, ao lado do motorista, mais uma vez me deu a dimensão do nosso estado de exacerbação, loucura e insensatez, do recrudescimento das relações, da pressa, da falta de respeito, do descaso com o outro.

Um casal de velhos, na faixa dos 80 anos, ambos com a respiração difícil, truncada, entra no ônibus. Ninguém dá o lugar. Dou o meu. Um jovem, envergonhado, levanta e oferece o lugar onde estava sentado, bem em frente de um cartaz que dizia: “acentos preferenciais para idosos, pessoas com deficiência, mães com criança no colo”.

Na rua, as pessoas atravessando em frente ao ônibus, sem olhar, arriscando a própria vida e a de tantos outros. Carros cortando o caminho do ônibus, afrontosamente. Freadas bruscas do motorista, que não tinha saída, quase me derrubam. Ele pede desculpas e comenta: o trânsito nunca esteve tão desregulado. Completo: e as pessoas também.

O mundo nunca esteve tão desregulado, sigo pensando. Mas quem não usa transporte público, não anda pelas ruas, não precisa de centros de saúde populares, não trabalha de sol a sol, não tem filhos em escolas públicas, não passa pelo centro nevrálgico das cidades, não vê o desespero cotidiano. A miséria se espalhando, a sujeira amontoada, a velhice maltratada, a educação minimizada, a saúde sem recursos, as crianças abandonadas, as paradas de ônibus entupidas de gente, os ônibus abarrotados, o destempero generalizado.

Quem vive protegido por altos salários, legislando em causa própria, mergulhado no “favorzinho” – uma proprina aqui, outra lá adiante – usando e abusando do dinheiro público que deveria estar na educação e na saúde, não tem olhos para o povo. Ou melhor, só vê o povo em época de eleições, quando as promessas jorram e tudo, milagrosamente, parece ter solução. Minha esperança é que esses tempos exacerbados acendam algumas luzes e as pessoas analisem a trajetória de cada candidato antes de votar, sem cair na “lengua-lengua barata” e virar vassalo, o que custa tão caro depois.

Temos aí um cidadão acima de qualquer suspeita para votar?

Outros fragmentos de um mesmo cotidiano. Da série Acessibilidade para quê?

“Se não nos movermos, o mundo encolherá para além do imaginável. Não só no lá distante. Mas aqui. (Tudo agora é um grande aqui.)” – Jornalista Eliane Brum, na coluna desta semana para o El País, O que o velho Araweté pensa dos brancos enquanto seu mundo é destruído?, onde fala sobre o impacto da construção da hidrelétrica de Belo Monte e o extermínio cultural de povos indígenas, agravado com a extração de ouro pela empresa canadense Belo Sun.

"Mover-se", por Tamar Matsafi
“Mover-se”, por Tamar Matsafi

Precisamos nos mover para que a nossa capacidade de luta e a nossa esperança de uma vida digna na aldeia que habitamos não encolham. Por isso, insisto nas questões que se referem à acessibilidade e à inclusão e busco entendimento e respostas.

Aqui, pequenas histórias da vida cotidiana, como ela é, um jeito de mostrar concretamente o porquê da inquietude que me acompanha. Movimento necessário para sair do limbo onde insistem em nos jogar.

*Lojas Renner, rede gaúcha referência em roupas e acessórios.
Para mim, quase um deserto. Entro. Ninguém olha. Ninguém vê. Vasculho um pouco. Alcanço em alguns produtos apenas. Então, logo pergunto para um e outro atendente sobre tamanhos etc e tal. “Podes ver para mim?” Respostas monossilábicas. Nenhuma sugestão. Não se dão conta, mesmo que o meu tamanho grite “tenho dificuldades de encontrar roupa”, que na pergunta que faço está embutido um pedido de ajuda. E já saem para arrumar prateleiras, o que, me parece, é o que fazem o tempo todo. Por esses e outros dissabores, deixei de frequentar as lojas do centro de Porto Alegre e do Shopping Iguatemi.

O “sirva-se você mesma e vá para o caixa pagar”, explícito na atitude, não me serve. Assim como não me servem o Self Made Man ou o We Can. Necessito da interação, não apenas pelos meus 1m10cm de estatura. Gosto de parceria, de um olhar, de um sorriso, de uma gentileza, de um “posso te ajudar?”. Fazer o quê!

No dia 6 de fevereiro, voltei à loja, no Shopping Total. Tratamento ainda mais impessoal. A sensação que ficou é que as pessoas que estão ali para atender o público, todas muito jovens, são orientadas para não sorrir, não perguntar “quer uma ajuda”, não interagir de forma alguma. Que dirá perceber que estão diante de um ser humano com necessidades especiais. Continuam monossilábicas e parecem fazer de tudo para não serem solicitadas.

Quase robôs! Assim como alguns atendentes de bancos, de laboratórios de exames, de repartições públicas e privadas. Virou norma agora? Que orientação esses profissionais recebem? O atendimento deixou de ser a alma do negócio? A tal qualidade total tão apregoada pelo marketing das empresas desandou ou é isso mesmo?

"Perplexidade", por Tamar Matsafi
“Perplexidade”, por Tamar Matsafi

*Mercado Público de Porto Alegre, onde pulsa freneticamente o coração da cidade.
Adoro o entra e sai. O burburinho. As bancas. O café. A padaria. As histórias. As vidas que cruzam cotidianamente por ali. A diversidade. Mas definitivamente não é um lugar para mim. Se estou sozinha, então, melhor nem tentar. Não alcanço em nada. E as pessoas tomam conta dos balcões como se fossem perder a última oportunidade de compra se fizerem uma gentileza. Não dão espaço. Não dão trégua. Salve-se quem puder! Quando, por ventura, consigo acessar um atendente, sou muito bem tratada em qualquer uma das bancas. Mas até conseguir são muitos empurrões, muitas admirações, muita mão na cabeça e as inevitáveis, para não dizer lamentáveis, observações: “Ah, pensei que fosse uma criança”. “Que engraçadinha!”. Haja paciência.

*E volto ao transporte público.
Na Praça 15, ônibus para o bairro. Fila enorme. As pessoas se empurrando, como se o ônibus fosse fugir e deixá-las ali plantadas para sempre. Resisto à pressa, aos apertos e aos comentários desagradáveis até entrar, sentar e observar, calmamente.

E a saga continua. Linha 10, carro número 6480, bairro Auxiliadora rumo ao centro, mais ou menos 11h15min. Uma senhora de muleta tenta entrar. Larga a muleta para se segurar. Quem ajuda? Uma senhora bem mais velha que também necessita de cuidado. O motorista olha. A cobradora, sorridente, também olha. E pede agilidade – “um passinho mais a frente, por favor”.

Relaxo e me pergunto: De onde vem esta ansiedade toda, este medo de perder o lugar, esta insistência em não ver o outro? Perdemos mesmo a delicadeza? É urgente evitar o encolhimento humano.