Um bando e muitos outros

Remexendo em guardados, encontrei o texto abaixo. Tudo indica que escrevi em 20 de julho de 1987 para o programa Palcos da Vida, da TVE/RS, apresentando o cantor e compositor Bebeto Alves. Não resisti à boa lembrança e resolvi publicar no blog.

Um bando e muitos outros

Foi lá pela segunda metade dos anos 70 que Bebeto Alves surgiu nos palcos da vida porto-alegrense. Era o tempo das Rodas de Som nas madrugadas de sexta-feira, produzidas pelo cantor e compositor Carlinhos Hartlieb, que lançaram vários músicos gaúchos.

Bebeto integrava o grupo Utopia, com Ricardo e Ronaldo Frota. Duas violas e um violino. Som acústico novo, ousado, harmonioso, numa época em que os acordes das guitarras elétricas detinham o poder. O Utopia se desfez em julho de 1976, mas Bebeto continuou, levando na voz forte e bonita o sentimento e a solidão/nostalgia do pampa para misturá-los ao burburinho da cidade grande e à pressa dos urbanos.

Pleno das suas origens de menino criado nas barragens do rio Uruguai, buscou o mar. Fundiu-os. Levou suas milongas. Violas. Guitarras. Estabeleceu pontes. Abriu porteiras. Galopes. Horizontes. Despedidas. Inverne e verão. O porto escancarado ao mar. Um bando e muitos outros. Alquimia que resultou no primeiro disco individual, gravado entre março e abril de 1981, no Rio de Janeiro, onde mescla, com rara beleza, a amplitude do pampa aos sons encontrados pelo caminho, agora feito de ruídos metálicos, esquinas e a solidão das multidões.

“Entre um chorinho e esse tal de roque, entre um baião e um chote”, a sua milonga tomou outras formas, assumiu outros ritmos. No segundo disco, de 1983, tornou explícita a notícia urgente de que Bebeto Alves era um compositor/cantor brasileiro que cantava, com as suas raízes, os sentimentos universais.

O verão carioca, o som das discotecas, a música jovem, a política do corpo, a vontade de fazer sucesso levaram Bebeto ao terceiro disco, dançante, sonoro, moderno, bem mais urbano e identificado com a vida no Rio de Janeiro. Novo País foi gravado em 1985. Depois dele um período de reciclagem. A volta ao sul. O pé na estrada mais uma vez. Nova Iorque. Outras tantas andanças. Redefinição de caminhos. E o caminho de casa novamente para a gravação de mais um disco, o quarto, recentemente no Porto de Elis.

Luís Alberto Nunes Alves/Bebeto Alves, 33 anos, um milongueiro das barrancas do rio Uruguai que ouviu Elvis Presley, cantava em inglês nos programas infantis de rádio, era crooner de conjunto de baile, isto ainda em Uruguaiana. Em Porto Alegre, curtia com os amigos a guitarra e a loucura de Jimmy Hendrix, o blues e agitava os ares da cidade com sua música forte, regional/urbana/universal, resultado de muitas e bem assimiladas influências.

Hoje, entre os muitos caminhos e os muitos voos, Bebeto ainda resgata, como poucos, os elementos do folclore da sua terra natal, incorporando-os às influências da música latino-americana, música urbana brasileira e ao novo que está por aí e que virá. Criou asas.

Foi e é possível – Minha experiência na TVE

1987. Pedro Simon é eleito governador do Rio Grande do Sul. O jornalista e publicitário Alfredo Fedrizzi assume a presidência da TVE. Eu o conhecia pouco. Sabia que era um dos diretores da agência Escala e que tinha trabalhado na RBSTV. Vez que outra a gente se encontrava em eventos culturais, seminários, lançamentos de livros, filmes, palestras.

Minha vontade de trabalhar na TVE era grande, inspirada por Jorge Furtado, pela ousadia do programa “Quizumba”, Eduardo Peninha Bueno, Zé Pedro Goulart, o programa “Pra começo de conversa”, Ana Luiza Azevedo e tantos outros. Fui falar com o Fedrizzi. Alguns anos antes, quando o jornalista Luiz Figueredo, meu amigo e comprade, era diretor de programação, eu já havia tentado. Ele foi gentil, mas não tinha vaga. Recolhi o desejo e segui trabalhando onde estava.

Desengavetei o desejo e, como o Figueredo, Fedrizzi foi gentil, me ouviu, quis saber da minha experiência em TV, não me perguntou sobre partido político. Estava iniciando a gestão e não sabia se teria como me contratar. Na saída encontrei Tânia Carvalho, com quem já havia trabalhado e virou uma grande amiga. Expliquei a ela porque estava ali. Por coincidência, o novo diretor de programação Luiz Eduardo Crescente passava pelo corredor e Tânia me apresentou a ele. Conversamos um pouco e me fui para o Correio do Povo, onde trabalhava.

No final de julho de 1987, Fedrizzi me convidou para chefiar os setores de Divulgação, Chamadas, Arte e Cenografia. Eu, que nunca quis ser chefe de nada, seria responsável pelas equipes de divulgação da programação, interna e externamente, de criação de vinhetas e gravação e edição de chamadas e pelos cenários. Argumentei, disse que só queria ser produtora, que não tinha vocação para chefia. Em vão. Assumi. Enfrentei alguns boicotes no início, tive muita ansiedade, quis desistir, mas, com o apoio de gente boa que trabalhava muito bem, fui ganhando experiência e segurança.

Formamos uma equipe cheia de garra, que se somava às equipes da produção e do jornalismo. Foram 4 anos de ações e invenções incríveis, realizadas com profissionalismo e entusiasmo. Conteúdo, qualidade técnica e intercâmbios faziam parte dos projetos. Tínhamos total apoio da presidência e da direção, sempre presentes, tanto para criticar, como para conversar, trocar ideias e aplaudir. Muitos programas locais foram criados – Palcos da Vida, Menor questão Maior, Radar, Pandorga, para citar alguns. A TVE fez parcerias com a TV Cultura de São Paulo e passou a exibir programas como Roda Viva, Metrópolis e Jornal da Cultura. Da TVE Rio, exibia o Sem Censura. As discussões que envolviam o trabalho eram acaloradas. E quase ninguém se omitia.

Nesse período, 1989, foi fundada a FM Cultura, muito festejada por todo mundo. Sob a direção da jornalista Liana Milanez, a rádio virou referência para as artes no Rio Grande do Sul, especialmente a música.

Essa movimentação fez parte do sonho de profissionais que queriam abrir cada vez mais espaços para a informação, a arte e a cultura do meio em que viviam, transformando a TVE e a FM Cultura em emissoras que refletissem, com talento, ousadia, liberdade e crítica, a produção local e nacional.

Foi e é possível
Por isso, não dá para entender o desmonte desses verdadeiros patrimônios públicos pelo governo Sartori e a tortura psicológica a que submete os funcionários da TV e da rádio (tortura sofrida também por trabalhadores de outras fundações em processo de extinção), ameaçados por demissão na véspera do Natal.

TVE3

Intensidades. Brilho nos olhos. Faces

Semana intensa, inquietante, misto de esperança e desesperança, com picos de nem tudo está perdido e acho que tudo vai dar certo.

Brilho nos olhos                                                                                                    

Participei, no dia 23 de novembro, do TEDxYouth@PAS, evento organizado pelos alunos da Pan American School de Porto Alegre. No encontro, os convidados tinham até 18 minutos para dividir experiências com o público, crianças, jovens, pais, professores. O ilustrador Cadu, Carlos Augusto Pessoa de Brum, deixou dois recados fundamentais: “Desafie preconceitos”. “A arte salva”. A ONG Sol Maior, antes da apresentação do seu grupo musical, sublinhou o que disse Cadu: “Música e dança são agentes de transformação. A arte agrega valor à vida de jovens vulneráveis socialmente”.

Falei sobre meu cotidiano com o nanismo. E comecei fazendo algumas perguntas: Quantos de vocês convivem ou já conviveram com pessoas que têm nanismo? O que sentem quando encontram um anão? Que sentimentos afloram? Pena, admiração, curiosidade, rejeição, solidariedade, espanto, medo? No final, uma menina me procurou para responder minha pergunta. Disse: “Eu sinto orgulho porque os anões não se escondem”. Os olhos daquela garotada brilhando, atentos, somados a essa resposta, salvaram o meu dia. Reacenderam a esperança.

Na minha fala, citei a afirmação do jornalista Luiz Antônio Araújo, em artigo no jornal Zero Hora (28 de julho de 2014): “Ser anão não é para qualquer um”. E lembrei do anão Umberto do livro infantil A história mais triste do mundo, do psicanalista e escritor Mário Corso – “Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”

Contei pequenas histórias pessoais e enfatizei que é sob o eco do preconceito e da tal “raça pura”, perseguida pelos nazistas, que nós, os diferentes, os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, como escreveu Araújo, ainda vivemos.

Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 24.
Minha participação no TEDxYouth@PAS, da Pan American School de Porto Alegre, realizado na quarta-feira, 23.

Faces                                                                                                                                  

Um dia depois do TEDx, fui gravar uma entrevista para o programa “Faces” da TVE. Reencontrei amigos e profissionais que trabalham para além das adversidades em um espaço público que é de todos nós. Foi comovente o que vi, ouvi, falei.

Impossível, ali, naquele espaço em que trabalhei quatro anos, não ver com lucidez a indigência política, o absurdo que é propor fechar a TVE e a FM Cultura. Onde estão os olhares sensíveis, criativos, humanos? “Ordens são ordens”. Basta cumprir! Sem entender ou questionar. Enquanto isso, vamos encarando esse admirável mundo “normal”, de políticos primários que impõem um desmonte nunca visto. Não conseguem ver na crise a possibilidade de sair do institucional, inventar, reinventar, facilitar, mudar. Apenas buscam culpados e penalizam os já penalizados. A desesperança bate!

A vida dói e pulsa                                                                                                        

Volto a dizer que necessitamos de olhares livres, não contaminados e viciados, para ir e vir com dignidade. Não queremos favores, benemerência, nem mãos na cabeça, fingir que está tudo bem, muito menos minimizar os problemas, desconhecer e negar a realidade. Queremos cidadania, direitos preservados, participação, independência e políticos capazes de ver o outro, dialogar e não fechar as portas da chamada “casa do povo”. Que casa?

Tenho convicção de que a arte salva e que a cultura nos dá identidade. Acredito na educação para a diferença, sem mordaça, e na riqueza da diversidade que constitui os indivíduos.

Para onde vamos com essa política que desconhece tudo isso?