Fragmentos da violência que nos cerca

Como se constrói a mínima estrutura para uma vida digna nestes tristes tempos em que tudo vira violência?

A política ordenada pelo mercado financeiro é violenta. Aponta cruelmente para uma população ainda mais pobre e desamparada. Os impostos e as taxas de juros são violentos. Pagamos pelo que não temos e pelo que nos tiram a cada dia. A mudança das relações de trabalho que vem por aí, com negociações acima da lei, é violenta. Como não haverá mediação do Estado, nem uma justiça especial, as ofertas serão adulteradas e indignas, e o trabalhador vai aceitar porque não terá outra condição. O parcelamento dos salários é violento. Impossível não pensar no dano moral, para além do dano material, das pessoas que honram seus compromissos, pagam suas contas em dia e, de repente, passam a receber aos poucos. E o que dizer da violência da corrupção e do poder nefasto que emanam do planalto central do país? A vida real está tão violenta que abre espaço para o fanatismo, para a intolerância, para o aumento da desigualdade e de todo tipo de destempero ou desespero.

“O que estamos fazendo uns com os outros?”
Essa é uma das perguntas da filósofa Márcia Tiburi diante da normalização de um discurso e de um comportamento violentos, que viraram norma no meio social em que vivemos. O que imaginávamos já ter superado cresce “por todos os lados, à direita e à esquerda, a partir de todos os credos”. Tudo o que foge de uma normalidade sem sentido, que nos é imposta, é foco de ódio – classes sociais, raças, etnias, religiões, opções sexuais e por aí afora. “A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos”, diz Márcia. Desaprendemos a falar e a ouvir. Já não entendemos que somos capazes de constituir um cenário ético-político diferente e que podemos “tentar intensamente o diálogo que está tão esquecido e faz muita falta entre nós”.

"Tempos líquidos", de Tamar Matsafi

“Tempos líquidos”, de Tamar Matsafi

Esse vazio de autoridade, que torna o poder tão vulnerável e gera essa incapacidade de agir em conjunto, é um convite ao recrudescimento da violência. “Há algo assustador no ódio contemporâneo”, completa Márcia. Mas quem são mesmo os nossos inimigos nesse mundo tão fragmentado? O que fazer com esse medo, essa insegurança, essa ansiedade que nos invade e contamina como praga? Por que não conseguimos ver outras possibilidades? Vivemos a liquidez da vida, que escorre frágil entre nossos dedos, como falou o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman?

Perdemos a identidade? Já não pertencemos a nada?
Subjugados pelo mundo digital que nos dá visibilidade, mas nos esconde e nos acovarda, temos opinião sobre tudo. Provocamos, atacamos sem conhecimento de causa, e acabamos mergulhados em uma viagem egocêntrica e superficial. Essa exacerbação do individualismo é muito violenta. Já não analisamos, não escutamos, não paramos, não olhamos para o outro. E esse não olhar, que desconhece os limites necessários para a vida compartilhada e para a inserção dos indivíduos na cultura, nos transforma em presas fáceis da violência.

Lanceiros Negros – Por quê?

Quando reivindico inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, reivindico justiça e humanidade. Tudo o que faltou na triste noite de 14 de junho de 2017, na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro de Porto Alegre, em ação truculenta da Brigada Militar, comandada por um governo que não inclui, não acolhe, não respeita a diversidade, não entende o que é ser humano. Ou, melhor, não sabe do Ser Humano. Famílias da comunidade Lanceiros Negros foram arrancadas de um prédio que pertence ao Estado de forma violenta, covarde e desnecessária em uma noite fria, véspera de um feriado.

Sem condições de escrever sobre esta história de abuso de poder, prepotência, brutalidade e hipocrisia, busquei alguns comentários de pessoas que respeito. Poderia ter sido diferente? É óbvio que sim, mas quando o poder perde a lucidez, sobra só violência.

O retrato do descaso com o ser humano
Liza Cenci, Grupo Inclusivass – Clima tenso de guerra, tiros, bombas ao descer na rua da ladeira. Chego em casa e está cheio de fumaça. 70 Famílias despejadas. Frio na alma. Tristeza. Retrocesso.

Luis Eduardo Gomes, jornalista Sul21 – O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Jussara De Azeredo Sá, advogada – Importante esclarecer para quem está muitíssimo mal informado e defendendo o governador nessa reintegração covarde que acontece agora no centro de Porto Alegre. O imóvel é do Estado. O Estado é que moveu ação de reintegração de posse. Portanto, o Sartori. Um imóvel que estava abandonado há mais de doze anos! Ao menos se informem antes de defender o indefensável. Ah, e pra quem, na falta de argumentos e sensibilidade diz que se trata de uma “ocupação política”: sim! É uma ocupação política. O direito à moradia é uma questão política. O descaso com a moradia é uma questão política. A decisão de despejar as pessoas sem uma política social que garanta o direito à moradia é uma decisão política. A cidadania é uma questão política. Viver é um ato político.

Lu Vilella, Livraria Bamboletras – E ainda fazem “campanha do agasalho”. Hipócritas. Fascistas. Desumanos. Monstros.

Fátima Ávila – Ocupação Lanceiros Negros abriga famílias que perderam suas casas, muitas por conta do tráfico ou por terem perdido seus empregos. Cumpre um papel importantíssimo de dar moradia e dignidade a essas pessoas, papel esse que deveria ser do estado. O estado se nega a cumprir com seu dever e ainda por cima manda desocupar com violência policial um prédio que estava abandonado, jogando 80 famílias na rua em uma noite fria. Tem crianças, tem mulheres grávidas, tem GENTE lá dentro. São super organizados e acolhem pessoas, muitas vezes, que vieram do interior e não têm onde dormir ou o que comer para que consigam se reerguer. Que vida queremos pra nossa cidade? Que vida essas pessoas vão ter? Quem coloca a cabeça no travesseiro no quentinho da sua casa e não se preocupa com essa gente tirada à força e jogada na rua? E aí vem me dizer que querem uma cidade sem violência? Imaginem o trauma dessas crianças? Pra onde vocês acham que eles vão correr? Somos todos responsáveis por essa situação.
Leandro Selistre, designer – Hoje, 15/06, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ontem à noite vários idosos foram agredidos na absurda atuação da polícia e do estado na Ocupação Lanceiros Negros. A justiça que mandou desocupar o prédio vai punir com o mesmo rigor essa violência?

Carmem Cecília Magalhães, professora – Meu Deus! Que atitude funesta desse governo Sartori. Tirando vidas do abrigo de um lugar que chamavam de lar e as jogando no relento da noite fria! O que vai testar nesse prédio abandonado e sem vida? Pedra e cimento onde antes ouvíamos vozes de crianças e bebês! Grande “obra desse governo”, um prédio fantasma igual ao coração seco e de pedra do governador Sartori. Qualquer obra que seja feita neste local após essa cruel desocupação será marcada pelas lágrimas dos que foram expulsos. A História jamais vai esquecer essa amaldiçoada ação desse governador. Ele será para sempre lembrado pelas lágrimas e pelo choro das crianças e bebês assustados e despachados na noite fria.

Jorge Correa, jornalista – Quando uma estrutura de tijolos e argamassa vale mais do que homens, mulheres e crianças, a civilização faliu. Cadê a humanidade?

Nina de Oliveira, jornalista – Quando a boate Kiss ardeu em Santa Maria/RS, naquele janeiro de 2013, levando mais de 200 almas, Cezar Schirmer era o prefeito da cidade e se eximiu de responsabilidades. Atualmente é o secretário de segurança do RS e, junto com o governador Sartori, autorizou o despejo de famílias, com suas crianças e velhos, da Ocupação Lanceiros Negros,usando de toda a força desnecessária da Brigada Militar, para mandar para a noite gelada os desvalidos. Os que vivem à margem desta sociedade desumana e desigual.
Para isto servem estes cidadãos. Para agir da maneira mais torpe, cruel e covarde. São gânsters. Andam em bando espalhando o terror. Ainda levaram preso o deputado do PT, da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, Jeferson Fernandes. Isto precisa ser denunciado. Todos precisam saber.

Daniel Soares, jornalista – Não é preciso dizer mais nada. Sartori e sua corja são criminosos. Comando da BM é capacho de um governador que atrasa salários, fecha escolas, quer vender patrimônio e ainda mantém um secretário de Segurança que afirma que a insegurança é imaginária.

Marco Weissheimer, jornalista – Chegando em casa agora da cobertura da ação de despejo da Ocupação Lanceiros Negros. Truculência é apenas uma das palavras para descrever o que aconteceu, entre ilegalidades flagrantes, como a ausência do Conselho Tutelar em uma ação contra famílias com crianças, cujo “crime” foi lutar por um teto para morar. Outra foi a notável falta de preparo e profissionalismo de integrantes da Brigada Militar, que abusaram da truculência e do desrespeito para com as famílias que estavam sendo despejadas do local onde viviam há um ano e sete meses. Para não falar da truculência com jornalistas que cobriam a operação. Mas não são necessários adjetivos. O melhor retrato sobre o que aconteceu é uma descrição sobre o que aconteceu na noite desta quarta-feira, no centro de Porto Alegre. Ao final do espetáculo de truculência e falta de compromisso social, os principais derrotados não foram os moradores da Lanceiros Negros, mas sim o governador José Ivo Sartori, o Judiciário e a Brigada Militar. Uma nota especial para a coragem do deputado Jeferson Fernandes, alvo de jatos de spray pimenta jogados à queima roupa em seu rosto e, especialmente, das famílias que resistiram e ousaram construir, no centro de Porto Alegre, uma alternativa de vida. Honraram o sentido do nome que escolheram para batizar esse espaço.

Dinorah Araújo, jornalista e atriz – Por que a Brigada Militar destruiu a biblioteca da Ocupação Lanceiros Negros? Destruir bibliotecas é uma ação usual dos governos autoritários, das ditaduras. Então, o que é o atual governo do RS?
Carlos Badia, músico – Programa Esfera Pública na Rádio Guaíba de POA sobre a questão da desocupação no prédio dos Lanceiros Negros está sendo extremamente esclarecedor. Rádio Guaíba dando show de jornalismo. Nenhum representante do governo do PMDB, mesmo convidado, se dignou a ir. Deve ser vergonha, pois como se está comprovando agora, a ação do governo através da brigada esteve repleta de equívocos jurídicos, que serão judicialmente investigados em profundidade a partir de agora.Sem falar na violência que foi injustificada, como se vê agora. Os índios que moravam na ocupação não puderam entrar no prédio hoje para pegar seus materiais de trabalho para vender no centro. Um equívoco atrás do outro. O governo do estado está sendo omisso nesse caso. Deveria dar uma satisfação à sociedade.

Adriana Franciosi, fotógrafa – Vergonha do Estado do Rio Grande do Sul. Ontem o governo Sartori, amparado pela decisão de uma juíza, que por sinal recebe auxílio moradia de 5 mil reais. desalojou 70 famílias com crianças na madrugada fria. A brigada Militar com sua truculência habitual contra pessoas de baixa renda, e até mesmo contra jornalistas, tirou as pessoas de um prédio no centro, o qual por 12 anos o Estado abandonou. E pior o governo Sartori, PMDB, faz isso sem ter um mísero plano para onde levar essas famílias.

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Revendo “O dia em que Dorival encarou a guarda”

"O dia em que Dorival encarou a guarda", por ChristianLesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda”, por ChristianLesage

Toda vez que me deparo com a intransigência e com pessoas que só se pautam pela burocracia, não são razoáveis e não conseguem ver a rigidez insensata das normas, salta da minha memória o genial curta-metragem “O dia em que Dorival encarou a guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart. E, mais uma vez, me dou conta do enredo incrível do filme que escancara o autoritarismo burro e a violência desnecessária.

Há algo de muito atual nesta curta história
Adaptação de uma passagem do romance “O Amor de Pedro por João”, lançado em 1982 pelo escritor Tabajara Ruas, o curta é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre (http://www.casacinepoa.com.br/. Fala sobre prisão, racismo, repressão, estupidez, mediocridade e outras tantas atitudes insanas, traduzidas pela frase “Ordens são ordens”. São 14 minutos frenéticos, que cruzam humor e violência em doses exatas, como escreveu o escritor Caio Fernando Abreu para O Estado de São Paulo, no dia 8 de agosto de 1986, ano do lançamento do filme.

Vi pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado. Desde então, virou filme de cabeceira, assunto de muitos debates e muitos encontros.

A história é absolutamente simples. Na prisão, o negro Dorival, em uma noite de muito calor, pede para tomar um banho. O pedido inusitado espanta e desencadeia uma rede de covardia, submissão, falta de discernimento e loucura dos carcereiros. A manifestação do desejo, apenas um banho, toma uma dimensão desproporcional. Do soldado ao cabo, passando pelo sargento e chegando ao tenente, autoridade máxima da carceragem, vai desvelando uma obediência cega, sem fundamento, covarde, e o medo do enfrentamento.

"O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe", por Christian Lesage

“O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe”, por Christian Lesage

A transgressão e a coragem de Dorival, que enfrenta a incapacidade da guarda e questiona a falta de argumento de quem lhe nega um banho, provoca a convocação de um bando de soldados para enfrentá-lo. Encurralados, eles só conseguem responder a partir do que recebem: autoritarismo e violência. Dorival é agredido ferozmente e fica jogado no chão da cela, sangrando.

É nesse momento que a ordem é maravilhosamente subvertida. O sargento, negro como Dorival, leva-o para o chuveiro. A água cai sobre ele como uma bênção. Ele sorri apaziguado. O instante, redentor, ganha ainda mais emoção e poesia quando o sargento acende um cigarro e coloca na boca do preso. A humanidade de um gesto fora da ordem salta aos olhos de todos nós e restabelece a esperança.

O filme
Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart
Roteiro: Giba Assis Brasil, José Pedro Goulart, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Direção de Fotografia: Christian Lesage
Direção de Arte: Fiapo Barth
Música: Augusto Licks
Direção de Produção: Gisele Hiltl e Henrique de Freitas Lima
Montagem: Giba Assis Brasil
Assistente de Direção: Ana Luiza Azevedo

Elenco Principal
João Acaiabe (Dorival)
Pedro Santos (Soldado)
Zé Adão Barbosa (Cabo)
Sirmar Antunes (Sargento)
Luiz Strassburger (Tenente)

Prêmios
– 1º Prêmio Iecine (Governo do Estado/RS), 1985-86: Apoio à produção.
– 14º Festival do Cinema Brasileiro, Gramado, 1986 – Melhor Curta Nacional (dividido no Júri Oficial, sozinho no Júri Popular e no Prêmio da Crítica), Melhor Ator de Curta (João Acaiabe) e mais 4 prêmios regionais (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).
– Troféu Scalp 1986: Destaque do ano em cinema.
– 21º Festival de Cinema Ibero americano, Huelva, Espanha, 1986: Melhor Curta Metragem de Ficção.
– 8º Festival Internacional do Novo Cinema Latino americano, Havana, Cuba, 1986: Melhor Curta de Ficção.
– Exibido na mostra “Os 10 Melhores curtas brasileiros da década de 80”, no Cineclube Estação Botafogo, Rio de Janeiro, 1990.

 

Acessibilidade e inclusão para quê? Entre desabafos e constatações

Pra onde ir, por Tamar Matsafi

Pra onde ir, por Tamar Matsafi.

Alguém que me lê em algum momento já parou para pensar efetivamente nos banheiros de ônibus e de aviões? Acessibilidade zero para qualquer pessoa que tenha uma necessidade física especial. Eu, com 1m10cm de altura, quase não consigo me movimentar nesses minúsculos banheiros.

Mas não é só o nanismo. E as pessoas altas e acima do peso, como se acomodam nesses cubículos? E as que têm dificuldades de movimento ou de se segurar? E quem está em cadeira de rodas?  E as crianças?

A questão não é simples.

Mais acentos, mais passagens vendidas, mais lucro? É essa a lógica? Dane-se o conforto e a acessibilidade. Afinal todos precisam viajar e, se não há melhores opções, que assim seja. É uma hipótese. A sociedade do “quero sempre mais” é desumana. E poucos pensam em minimizar as dificuldades, que dirá resolver!

O dinheiro dos impostos pagos regularmente pelo cidadão para garantir algum serviço de qualidade vaza pela corrupção miúda e farta que percorre as veias abertas das administrações sem escrúpulos de muitos governos. E sangra muitas vidas, especialmente a vida de milhares de brasileiros que trabalham eticamente e dizem não ao ilícito, ao abuso de poder, ao dinheiro fácil.

Na sociedade do lucro acima de tudo, o outro só é considerado se contribuir para aumentá-lo e para o acúmulo de quem já tem em demasia. É o que temos. Gastos para atender uma demanda específica de quem tem uma dificuldade são vistos como desnecessários. Não dão “ibope” a ninguém. Conquistas? Só com muita luta. Algumas reivindicações voltadas para a acessibilidade esbarram no quesito verba. “Não está previsto”. “Não foi orçado”.  Estanca na burocracia. “Não podemos fazer sem autorização”. Morre no desinteresse generalizado. “O que eu ganho brigando pela sua causa?”

Enquanto isso, a sonegação de impostos corre solta, governos aprovam obras desnecessárias, fecham os olhos para o superfaturamento e o caixa dois, não fiscalizam, trocam benesses por votos, perdoam dívidas de grandes empresários em troca de apoio e fazem o mínimo pelas pessoas, o que custa muito pouco na maioria das vezes.

Enquanto isso, muitos políticos eleitos para cuidar dos interesses da população, que deveriam ser olhados e tratados como trabalhadores do país, acumulam regalias. Além dos salários polpudos, têm uma série de auxílios. Trabalham em causa própria. Criam projetos desnecessários. Transformam mandatos em empregos. Só pensam na próxima eleição para garantir mais quatro anos. Facilitam o trânsito dos corruptos. Enriquecem ilicitamente. E, como se não bastasse, ainda são tratados como seres especiais, fazendo uso do tal “foro privilegiado”.

Assim é o Brasil dos deitados em berço esplêndido que aí está, escancarado, para quem quiser ver.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Quando se fala de acessibilidade e do que pode ser feito efetivamente, de ordem prática, para incluir as pessoas, se cai no vazio.

Vou dar um exemplo simples, que diz muito dessa realidade.

Sempre que entro em um banco, público ou privado, e procuro um mínimo de acesso, não encontro. A única exceção é a agência do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde tenho conta, e que já comentei aqui. As pessoas que atendem são gentis, mas burocráticas. Não sabem o que fazer comigo, muito menos propor uma alternativa que me dê autonomia. A pergunta “Vocês têm um banquinho ou uma cadeira onde eu possa subir?” desnorteia. E a resposta, invariavelmente, é “só temos com rodinhas”. Não dá!

Às vezes, a situação é tão vulnerável, e tão humilhante, que a vontade é virar as costas e não voltar. De modo geral, as pessoas com alguma dificuldade física quando pedem ajuda são tratadas de forma infantil, como se fossem ignorantes, senis, tontas, seres de outra galáxia.

A solução? Neste caso específico, revelar as senhas para conseguir pagar uma conta, tirar um extrato, pegar algum dinheiro.

Volto à velha tecla, já batida: de que adiantam discursos e leis se ninguém é preparado para acolher a diferença? Se poucos conseguem ver que é possível andar na direção contrária da padronização e da burocracia? A melhor maneira de combater o espanto, que vem com o preconceito, é a informação, o conhecimento, a vivência. Mas ainda estamos longe disso, lamentavelmente.

Quando falo de padronização, burocracia, preconceito, falo desses pequenos descasos cotidianos, lamentavelmente já incorporados no dia-a-dia de muitos. Falo da intolerância absurda que provoca tanta violência, medo e morte. Falo do silêncio.

O episódio do senhor que tentava pegar uma calça e uma blusa em uma caixa de doações da campanha do agasalho, em um supermercado de Porto Alegre, é um exemplo triste desse tipo de descaso. A noite era gelada, mas ele foi impedido porque só a Defesa Civil poderia retirar as peças.  Assim funciona a burocracia.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

E o massacre violento em Orlando, nos EUA, na madrugada do dia 12 de junho, em uma boate gay? Tragédia motivada pela homofobia. “Não aceito, então mato”. Assim se manifesta o preconceito radical.

Foi um atentado contra todos os que lutam pela diversidade, pelo diálogo, pelos direitos humanos. Os que se calam e se recusam a ouvir a voz da comunidade LGBT, entre outras tantas vozes dissonantes, preocupados apenas em responsabilizar alguém rapidamente para encerrar o assunto, não querem o debate. Preferem o silêncio. E silenciar é consentir, deixando brechas para que outras formas de violência se manifestem.