Não é pesadelo. É realidade

Não, não é um pesadelo. É o que é. Sem panos quentes. Na dura realidade de um país mergulhado no ódio, a insensatez dos inescrupulosos não dá trégua. A violência está autorizada, com passaporte carimbado por quem comanda a nação. Perdemos o sono. E está difícil sonhar.

Estamos em alerta. Acordados e de olhos arregalados diante das atitudes torpes, irresponsáveis, mesquinhas e machistas, que se tornaram cotidianas no país. Atitudes que humilham, ofendem, roubam nossos direitos e nos intimidam, sem o mínimo resquício de humanidade e respeito. O feminicídio aumenta. Pessoas com deficiência rejeitadas e ameaçadas de perder a lei que as protegem. A população LGBT condenada pelo conservadorismo estúpido. Os negros e os índios hostilizados. A educação, que considero um dos principais compromissos de um governo responsável, sem régua e compasso, ao sabor da ineficiência dos gestores.

A escancarada apologia da tortura e a supressão de direitos básicos mostram a cara de um Brasil que desconheço e que me assusta ao carregar uma brutal negação das conquistas de todos nós – a diversidade, as lutas das minorias, a democracia. O objetivo é empurrar toda pessoa que pense diferente ou apresente alguma diferença (física, mental, intelectual, racial, de comportamento) para a invisibilidade, o esquecimento, a não participação. Para uma espécie de limbo onde as vozes são apagadas. A amarga discriminação imposta deriva da construção de um país e de uma ideia de normalidade sem fundamento algum.

Tempos sombrios

A realidade é cruel e não dá trégua. No Planalto Central, um Congresso formado por uma maioria inescrupulosa, que se vende com facilidade, decide os destinos do país com apetite voraz. Todos voltados para seus umbigos ambiciosos. Bilhões escorrem por mãos desprezíveis, passam por vias sórdidas e recheiam os bolsos de políticos de carreira e de empresários de plantão, prontos para garantir o lucro acima de qualquer coisa e não perder nada. Tudo é negociado. O poder, os cargos, as regalias, o silêncio, os apoios, as conveniências. Enquanto isso, trabalhadores e aposentados são o alvo do momento, apontados como os responsáveis pela crise da previdência social. Não se fala da sonegação secular das grandes empresas. A solução? Encolher direitos trabalhistas, salários e gastos sociais, penalizando ainda mais os que já têm muito pouco. Mas os políticos e a elite empresarial garantem que tudo é feito por uma causa nobre: Alinhar os descaminhos do Brasil e apoiar um governo que, ironicamente, não poupa esforços para privilegiar os militares e faz agrados para manter o judiciário sob sua guarda. O povo? Que vá trabalhar!

Tempos de desencanto

Quando comecei a escrever neste blog – com a proposta de refletir sobre inclusão, acessibilidade, preconceito, direitos humanos e os limites de uma sociedade despreparada para acolher a diferença – jamais pensei que teria pela frente tempos tão difíceis. Hoje, diante do desmonte que aí está e diante de um governo que acha que a Lei de Acessibilidade e Inclusão é uma bobagem, falar sobre estas questões se tornou ainda mais necessário. É fundamental reagir.

Tempos de não deixar passar

Reafirmo que, quando falo de acessibilidade e inclusão, falo de cidadania, respeito, direitos sociais básicos, independência, liberdade, acolhimento. Ao rotular ou desprezar as diferenças, o governo anula a singularidade que torna os indivíduos únicos. Anula a criatividade. Anula a democracia. Anula o humano. Enquanto os defensores dessa casta violenta, que se julga acima de qualquer suspeita, insistirem em jogar para as margens os que veem como imperfeitos, nossos caminhos permanecerão minados pela intolerância. Por isso, mais do que nunca, vivemos tempos de resistência, de mostrar o que somos e a que viemos. É a soma das nossas tantas imperfeições que nos faz humanos, inquietos, lutadores, criativos e utópicos.

Não queremos apenas atrapalhar o trânsito. Queremos parar o trânsito para que nos olhem como pessoas com direito à vida plena. Queremos autoridades que efetivamente nos representem, nos reconheçam e respeitem nossos sentimentos. Um governo que vê nos 80 tiros disparados pelo Exército contra o carro de uma família a caminho de um chá de bebê apenas um “lamentável incidente” não me representa. Que seres são esses que não se abalam com tamanha tragédia e seguem a brincar de fazer e desfazer pelas redes sociais, submissos aos caprichos do país mais poderoso, mais cruel e mais invasivo do planeta?

Diferença, inclusão, direitos humanos – debate urgente em tempos de desmonte

A seguir minha fala no IV Seminário Criança na Mídia: Tempos de Discriminação e Direitos Humanos – FEEVALE/Novo Hamburgo, em 17 de outubro

“Se as pessoas pensassem nas crianças nem precisariam pensar em nós, os anões. Por que os trincos das portas precisam ser tão altos? As maçanetas redondas são uma maldade com os anões e com as crianças: para abrir é preciso ter uma mão grande. Ninguém se dá conta disso?”. Ao dar voz ao desabafo do anão Umberto no seu primeiro livro infantil, “A história mais triste do mundo” (Bolacha Maria Editora), o psicanalista e escritor Mário Corso nos mostra o quanto as crianças e as pessoas diferentes dependem do olhar e da atitude do outro para serem acolhidas e o quanto incluir é necessário.

Se estivesse em um hospital, o anão Umberto perguntaria: Por que usar aparelho de pressão grande em braço tão curto? Detalhe que poucos lembram e que deixa evidente a negação da diferença. O tamanho, o peso, a dosagem da medicação, o conforto, o que fazer com as crianças ou com um adulto em um corpo tão pequeno, no caso das pessoas com nanismo? As perguntas espantam e quase não temos respostas! Às vezes o vácuo é tão insondável que parecemos estrangeiros buscando um mínimo de dignidade em um mundo que não nos reconhece, não nos vê.

Agradeço à Saraí e aos organizadores deste Seminário por mais uma oportunidade de Conversar sobre Inclusão e Direitos Humanos. É necessário refletir coletivamente sobre questões relacionadas ao cotidiano de pessoas que, como eu, têm uma deficiência ou uma diferença marcante.

Insisto em falar e escrever sobre acessibilidade e inclusão na busca de respostas para questões que envolvem leis, políticas públicas e, especialmente, sensibilidade. Ao reler um artigo da arquiteta gaúcha Flavia Boni Licht chamado “Acessibilidade – um fator de inclusão social”, chamou minha atenção uma frase que ela cita, do também arquiteto João Filgueiras Lima: “Certas coisas não estão escritas no manual, fazem parte da consciência crítica de cada um”.

A afirmação sintetiza o que penso de leis, normas, regras, estatutos, tudo o que é criado para colocar ordem na desordem humana. Necessárias, certamente. Regulam, oferecem garantias, apontam a preocupação da sociedade. Mas não bastam! Fundamental é a atitude, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de mudar a regra, se a situação pede. Governos, empresas, instituições públicas ou privadas, na maioria das vezes, cumprem ordens, sem a preocupação de entender o cotidiano de quem tem uma diferença.

Enquanto a burocracia discute como incluir, a vida anda e vamos dando um jeito de encarar com dignidade o cotidiano desse mundo dito “normal”. Tão normal e tão acomodado que não vê na diversidade uma maneira de sair dos espaços institucionalizados e inventar, reinventar, criar, mudar, facilitar. A diferença, seja ela qual for, necessita de olhares capazes de ver o invisível, de acolher, de ousar.

A formação de grupos humanos aponta para um fenômeno curioso. Ao mesmo tempo em que se criam traços de identidade entre seus integrantes, admite-se a exclusão de determinadas pessoas ou grupos. Certas características e comportamentos são bem-vindos e outros repudiados.

Historicamente, a sociedade sempre reservou um lugar para as pessoas que fogem do padrão, como se fossem incapazes. Assim se criou uma teoria da normalidade alicerçada no preconceito. Parte-se do já inscrito na cultura, a que todos, de algum modo, devem se conformar.

Os que se afastam ou não correspondem aos padrões determinados sofrem vários tipos de discriminação e há um esforço grande para jogá-los na invisibilidade. Na Idade Média e em outros tempos obscuros, como o período do nazismo na Alemanha, a morte era a sentença para os que não correspondiam à raça pura.

Ninguém se admira com o apagamento da pessoa com alguma diferença, física, intelectual ou mental. Temos casos recentes de crianças com Síndrome de Down e Autismo que tiveram matrícula negada em escolas. Muitos jovens que procuram emprego são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo.

Por isso, precisamos falar sobre a diferença com a criança, foco deste encontro. Enfrentar o preconceito que todos carregamos é não ter medo do impacto das palavras. Precisamos fazer essa travessia para eliminar o fantasma cruel da exclusão. E só a fala, com atitude, tem condições de desacomodar conceitos e pré-conceitos e apontar para a inclusão.

Precisamos dar voz às crianças, ouvir o que têm a dizer, entender o seu espanto quando encontram uma pessoa diferente, responder suas perguntas e deixá-las manifestar a curiosidade. A negação e a repressão alimentam o preconceito porque se conformam às mensagens socialmente instituídas: cada grupo no seu lugar fazendo o seu papel.

Essa é a condição para que negros, população LGBT, mulheres, índios, quilombolas, pobres e pessoas que apresentam alguma deficiência ou comportamento diverso sejam aceitas. Ninguém se espanta ao ver o negro como porteiro, operário ou empregada doméstica. O homossexual como figura bizarra também não surpreende. Bem como o anão, visto como figura grotesca ou mágica, divertindo as pessoas. Já nascemos, portanto, marcados, inseridos em um meio incapaz de falar sobre diversidade. E ai dessas pessoas se ousarem extrapolar esses espaços!

O nu artístico é crime. A infância abandonada nas ruas, nas escolas, nas famílias, não. Prega-se a necessidade de proteger as crianças dos movimentos e ações culturais que mostram a diversidade. Da fome, das balas perdidas, do machismo, do assédio, do estupro, não.

Como mudar este olhar para a diferença?

Essa é a grande tarefa das famílias e dos educadores nesse momento em que forças obscuras avançam sobre o Brasil tendo o autoritarismo, a violência e o preconceito como bandeira.

Ensinar, aprender, dialogar, dividir saberes e experiências são compromissos que não podem ficar para amanhã.

Em uma entrevista para o portal Sul21, o jornalista Vitor Necchi diz que “as escolas, em todos os seus níveis, do fundamental ao superior, devem ser espaço de constituição da cidadania e de um pensamento elaborado que inspire sujeitos críticos e conscientes, sujeitos comprometidos com a valorização da vida”. “As escolas devem ser ambientes de reflexão sobre respeito à diversidade e de combate ao preconceito. As escolas não podem absorver a lógica das empresas e se firmarem sob valores como concorrência e meritocracia. E as universidades, em particular, precisam aprofundar o exercício da crítica e da pesquisa”. “O processo de ensino e de aprendizagem tem que desacomodar. A partir das incertezas, crescemos e adensamos o conhecimento e a consciência”, afirma ele.

Só a educação para a diversidade vai barrar o impulso primeiro de todo o excluído, que é calar e aceitar passivamente o massacre, por medo da rejeição. Não se acomodar é falar, dar voz ao que repudiamos e instaurar a desordem libertadora, cidadã. A instituição dos direitos humanos nos trouxe a ética, o respeito, a solidariedade, valores que estão sendo contaminados por um desentendimento bárbaro e por abusos de toda ordem. Caímos em uma polarização acompanhada de um ódio feroz, que rechaça a diferença e o pensamento libertário.

Minha reflexão se faz justamente sobre esse sujeito diferente, ameaçado porque ousa ter um comportamento diverso, porque pensa, age e fala. Como se constitui esse sujeito? Que posição ocupa em relação aos discursos que se fazem sobre ele? Acomoda-se, submete-se, resiste e acrescenta um efeito novo e crítico? Sacode as certezas já estabelecidas? Inquieta a maioria conformada ao padrão clássico de beleza, comportamento, tamanho, origem e meio social? Que discussão provoca?

As sociedades modernas, em razão de sua aspiração igualitária, criaram mecanismos dedicados a anular a diferença para, em um segundo momento, segregar todo aquele que não se conforma ao padrão estabelecido. Mascaram a dificuldade de assimilação da diferença, enquanto grupos que sofrem preconceito lutam pela conquista de dispositivos legais que proíbam a discriminação, o que é necessário, mas também pode mascarar o problema.

Não se trata de anular as diferenças, porque elas efetivamente existem. Nem de reduzir a discussão apenas à conquista de dispositivos legais. O fato é que precisamos de muito mais para abstrair o preconceito resultante de um processo histórico e cultural que fixa um modelo, no qual o sujeito se inscreve desde o nascimento – a casa grande e a senzala, o macho que dá ordens e a fêmea que obedece, a raça pura e a raça impura, os frutos da mistura de raças que gerou seres imperfeitos e por aí afora. Militares brasileiros quando torturavam mulheres grávidas durante a ditadura costumavam dizer: “Se for homem, branco e saudável, quando nascer, ficaremos com ele”.

O que desejo aqui é alertar para a necessidade de prestarmos atenção nos efeitos do preconceito que incorporamos e reproduzimos sem nos dar conta.  Uma sociedade moldada por e para pessoas supostamente “normais”, que responde a padrões já traçados, como o machismo e o racismo, é cruel e impõe inúmeros limites.

Nesse contexto, as pessoas diferentes ficam muito vulneráveis. Acabam dependendo da bondade e disponibilidade das pessoas ditas “normais” e são obrigadas a criar mecanismos de defesa para a sua sobrevivência em um universo hostil.

Quem sofre preconceito pela condição física, mental, intelectual, social ou comportamento precisa impor o seu jeito de ser, subverter o estigma e não cair na vitimização. As conquistas feitas até agora apontam para a diferença no sentido de não mais ignorar ou mascarar.

No momento em que parte da sociedade começa a entender que a grande riqueza humana está na diversidade, esta discussão tem que ganhar mais fôlego. Não pode se dispersar justo agora em que os direitos humanos são questionados, perdem espaço e importância e têm pouca representação nas políticas que se desenham para o país.

Cabe às pessoas que têm uma diferença alertar e sensibilizar a sociedade para as suas limitações e reivindicar direitos e políticas públicas que priorizem a inclusão e a acessibilidade porque este é um dever do Estado.

Cabe aos educadores educar para a diversidade. acredito que uma educação voltada para as diferenças é o melhor caminho, em casa e na escola. Uma educação libertadora passa inevitavelmente pela simplicidade, jamais pelo extraordinário. Passa pelo acolhimento, pelo afeto, pelo diálogo, pela segurança, pela verdade. E, como já enfatizei, pela fala.

Cabe aos governos criar políticas públicas de inclusão. Repensar a diferença e não mais ignorar as dificuldades enfrentadas pelos cidadãos é um dever das administrações municipais, estaduais e federais, em sintonia com suas comunidades. São múltiplas as possibilidades que as diferenças trazem, fora dos discursos ultrapassados e redutores.

Cabe às empresas entender os limites de uma pessoa com deficiência, estimular sua inserção no trabalho, orientar, acolher, e não apenas jogá-la em uma função para cumprir a lei.

De um modo geral, as instituições (públicas, privadas ou independentes), incapazes de sair do convencional, se enredam em normas na tentativa de facilitar um cotidiano que desconhecem. Desperdiçam a maravilhosa chance de conviver e aprender com uma pessoa diferente, ouvindo dela o que ela precisa. E, por acomodação, perdem a possibilidade de inventar, reinventar, mudar, quebrar rotinas.

É a partir desta realidade que proponho pensar o papel dos meios de comunicação porque, de um modo geral, eles se pautam pelo sensacionalismo, contribuindo para a criação de estereótipos. Se não tem superação, não tem notícia. Conclusão: É a pessoa com deficiência que deve se adaptar à sociedade, e não o contrário.

Cabe, portanto, à mídia, formadora (ou deformadora?) de opinião, sair do discurso da superação, naõ alimentar mitos, nem transformar as pessoas com deficiência em vítimas, heróis ou guerreiras a serem admiradas. Até porque não se trata de superar. Trata-se de viver com a deficiência da melhor maneira possível.

Cabe à imprensa questionar governos e empresas, pressionar pelo cumprimento das leis, investigar, cuidar da linguagem, usando a terminologia correta, proposta pelas pessoas com deficiência que colaboraram na construção do tratado de Direitos Humanos, que é a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência.

Se prestarmos atenção, a pessoa com deficiência é, em geral, caracterizada por suas fragilidades e não por suas qualidades. E a linguagem tem papel fundamental nessa construção porque traduz o olhar da sociedade. Revela conceitos, mitos, evolução e transformação. Voluntária ou involuntariamente, revela o respeito ou a discriminação.

Só vamos chegar ao desenvolvimento social que buscamos quando entendermos que cada um tem contribuições a dar, a partir do seu jeito de ser, de estar e de ver o mundo, do seu saber e da sua maneira de colaborar para a qualidade de vida de todos. SEM SUPERAÇÃO!

A luta dos cidadãos é a mesma. Contra a discriminação, contra o apartheid, contra a falta de oportunidades, contra a miséria, contra a exploração, contra o trabalho escravo, contra o abandono infantil e a reiterada posição de discriminar parecendo que não está discriminando.

A diferença é a riqueza do mundo e deve ser respeitada, independente de raça, cor, sexualidade, religião, deficiência física, mental, intelectual, surdez, dificuldade de visão, uso de cadeira de roda e outras características. “A vida é rio, não é muro, apesar de quem pensa que o lugar dos diferentes é o muro de fuzilamento”, escreveu recentemente o jornalista gaúcho Renato Dalto.

Precisamos ficar atentos aos efeitos dos discursos sobre a diferença. É importante instigar, fazer pensar, mas evitar o sensacionalismo, que não contribui em nada para causa nenhuma. Precisamos, sim, de mais civilidade, mais humanidade e mais sabedoria ao falar da deficiência, seja ela qual for.

Os anões, por exemplo, até bem pouco tempo, eram praticamente invisíveis para a sociedade, para os governos, para a imprensa. Alvo de chacotas, piadas e brincadeiras de mau gosto, eram pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores.

Precisamos dar voz às pessoas diferentes sem assoberbá-las, sem exigir que provem o tempo todo que são capazes. É o famoso “matar um leão por dia”.

A pergunta que quero deixar aqui é: Como tratar de temas como deficiência, acessibilidade, inclusão e preconceito, evitando cair no heroísmo, no fetiche, no sensacionalismo, no clichê, na vitimização, no paternalismo, no estereótipo, no constrangimento e na superação, questões tão reforçadas pela sociedade e endeusadas pela mídia?

O que é possível fazer? Precisamos formular novas questões. Quem disse que não é possível? Ver o outro para além de qualquer barreira, com sensibilidade e respeito, é transformador. As pessoas que fogem do padrão instauram a desordem na sociedade normalizada. E ao fazerem isso apontam para a riqueza de uma sociedade múltipla.

Não podemos aceitar a invisibilidade como fuga das agressões provocadas pelo preconceito.

É preciso responder naturalmente à curiosidade das pessoas. E especialmente das crianças, repito, por sua ingenuidade. Calar é concordar. A visibilidade e a fala trazem cidadania. Afinal, de um jeito ou de outro, todos buscamos respostas para o que desconhecemos ou estranhamos.

É bom lembrar que tijolo por tijolo desta construção é resultado de muitas cabeças, braços e pernas que deveriam andar em harmonia, respeitando direitos e deveres. Mas há uma inegável herança escravocrata correndo pelas nossas veias. Há uma indisfarçável necessidade de súditos e um clamor pela perfeição. Não suportamos o que nos aponta para o imperfeito.

Há uma necessidade absurda de proteger o que determinamos ser nosso, alimentada pelo discurso do esforço que fizemos para chegar aonde chegamos. Como se essa caminhada não tivesse anteparos a cada passo, a cada pedra no caminho, a cada trajeto percorrido, a cada conquista feita.

Por que excluímos? Por que penalizamos aqueles que consideramos inferiores a nós? Por que temos tanta dificuldade de olhar para as pessoas com deficiência com olhos livres, reconhecendo suas capacidades? Por que nos é tão difícil o pensamento coletivo? Precisamos entender que não somos ninguém sem o outro.

Para encerrar, duas frases de canções de Caetano Veloso, que funcionam como uma “bússola” nessa nossa jornada: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” – “De perto ninguém é normal”. Portanto, não somos nem vítimas nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com a nossa dificuldade, as nossas aptidões e os nossos sonhos.

2018, um sonho cada vez mais distante

No final de novembro de 2017, Zero Hora publicou um artigo meu chamado “2017, o ano que precisa acabar”. Abri o texto dizendo que “a vida dividida em ciclos parece mais palatável. Quando um ano chega ao fim, entendemos que é tempo de respirar fundo, dar uma trégua, renovar as esperanças. A roda da fantasia começa a girar vertiginosamente e a ilusão está dada. Basta aderir”. O ano terminou, mas o sonho está cada vez mais distante. A corrupção do país não dá trégua, assim como o ódio e a busca incessante por culpados. Desde que a culpa não caia sobre o governo golpista, é claro, que, apesar das tantas denúncias, continua acima de qualquer suspeita. O ano não chegou ameno, muito menos justo.

Difícil aderir. A realidade é perversa. Os podres poderes Executivo, Legislativo e Judiciário estão mergulhados na lama, mas nada acontece. O bando que entrega o Brasil de bandeja ao capitalismo mais sórdido faz de tudo para justificar a entrega, sucateando instituições e empresas estatais que funcionam e dão lucro. E é capaz de pactos desumanos porque só através deles conseguem manter privilégios e sustentar orgias.

Já nocautearam a educação, a cultura, os projetos sociais, a segurança, as pesquisas. Sabem que um país sem luzes no campo da ciência e das artes, com um ensino frágil, fragmentado e elitista, certamente será menos autônomo e mais fácil de dominar. Sem boas escolas, sem manifestações artísticas autênticas, sem reflexão, sem análise, sem leis trabalhistas dignas e com mudanças que interferem em direitos conquistados, o horizonte que se desenha é vulnerável. Sem pensamento crítico e com uma interferência cruel na formação dos indivíduos, para onde vão valores preciosos como liberdade, responsabilidade e ética?

O cenário hoje é feito de discórdia, violência, corrupção e preconceito. A precariedade da saúde pública, a insegurança, o desemprego e a tão falada falta de verba dos governos para tudo deixam a população ainda mais frágil. Adoecem o corpo e a alma. Espalham-se país afora. E chegam às mais recônditas comunidades. Parece não haver cura para tanto mal premeditado.

Se o difícil e sombrio ano de 2017 não deixou saudades, o ano de 2018 já chegou absurdamente torto. As perdas são inúmeras e nunca antes imaginadas. O espetáculo que se descortina é trágico e assistimos atônitos e sem voz. Nenhum sinal de garra e delicadeza. Quase nenhum candidato fora do já esperado. Os discursos se repetem, minados de promessas. A salvação existe. Quem ainda ouve? Quem acredita? Estamos em um deserto político.

Vestígios de uma manhã de sábado

Saio cedo de casa. O tempo é ameno e impreciso. Muitas nuvens. Eventualmente, alguns raios de sol. O contato com a vida que pulsa nas ruas na manhã de sábado é duro.

Na Félix da Cunha, entre a Praça Maurício Cardoso e a Padre Chagas, dois rapazes e uma moça, provavelmente ainda saindo da noite, caminham desvairados. Chutam o que veem pela frente de um jeito raivoso. A rua quase vazia. Param. Olham. Seguem. Inquietos e agressivos. Apreensiva, desacerelo o passo. Ao passar em frente ao lindo conjunto de casas tombadas, eles abordam uma mulher que abre as portas de um café. Ela conversa firme. Eles seguem, gesticulando agressivos. Tomo mais distância. Deixo que sumam. E vou. Com medo!

Ao chegar na rua Padre Chagas, estranho o silêncio. Alguns limpam as calçadas marcadas pelas festas noturnas. Outros, recolhem o lixo, farto. Um jovem sentado em um pequeno muro ainda bebe. E fala. Sozinho.

Na esquina da Florêncio Ygartua com a 24 de Outubro, dois catadores de lixo dormem placidamente, bem próximos à marquise de uma loja, protegidos por suas carroças abarrotadas. Vencidos. Entregues.

Mais adiante, um rapaz passa por mim dizendo coisas desconexas, olhos muito arregalados. Ao me ver, para, um tanto espantado. Fico apreensiva, mas ele ri e diz: “Cuidado tia, crianças não andam sozinhas nesta hora”. E segue, falando e gesticulando ruidosamente.

Do outro lado da rua, mais uma criatura fala sozinha.

Faço as unhas.

Ao voltar, encontro os catadores bem acordados, sentados na entrada da loja onde se abrigavam, comendo pão. Eles me cumprimentam animadamente. Mais um dia de buscas pelo lixo começa.

A manhã ainda tem pouco movimento. Mas a miséria humana já está nas ruas, exposta cruelmente.

Impossível não pensar nas tantas malas e caixas de dinheiro desviado que circulam por esse Brasil, nos deputados tão bem pagos para salvar Temer das denúncias e na descarada miséria moral em que nos fizeram mergulhar. Enquanto isso, a miséria física, da pobreza extrema, da indigência que degrada, humilha, dói no corpo e na alma e enlouquece, aumenta assustadoramente.

Em casa, uma canção de José Miguel Wisnik, músico, compositor e ensaísta, professor de Literatura, mestre, doutor, um artista brasileiro que admiro muito, me sacode: “Se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”. Há que se aprender e lutar cotidianamente contra a miséria moral que nos agride e faz crescer a miséria de gente como a gente.

 

Fragmentos da violência que nos cerca

Como se constrói a mínima estrutura para uma vida digna nestes tristes tempos em que tudo vira violência?

A política ordenada pelo mercado financeiro é violenta. Aponta cruelmente para uma população ainda mais pobre e desamparada. Os impostos e as taxas de juros são violentos. Pagamos pelo que não temos e pelo que nos tiram a cada dia. A mudança das relações de trabalho que vem por aí, com negociações acima da lei, é violenta. Como não haverá mediação do Estado, nem uma justiça especial, as ofertas serão adulteradas e indignas, e o trabalhador vai aceitar porque não terá outra condição. O parcelamento dos salários é violento. Impossível não pensar no dano moral, para além do dano material, das pessoas que honram seus compromissos, pagam suas contas em dia e, de repente, passam a receber aos poucos. E o que dizer da violência da corrupção e do poder nefasto que emanam do planalto central do país? A vida real está tão violenta que abre espaço para o fanatismo, para a intolerância, para o aumento da desigualdade e de todo tipo de destempero ou desespero.

“O que estamos fazendo uns com os outros?”
Essa é uma das perguntas da filósofa Márcia Tiburi diante da normalização de um discurso e de um comportamento violentos, que viraram norma no meio social em que vivemos. O que imaginávamos já ter superado cresce “por todos os lados, à direita e à esquerda, a partir de todos os credos”. Tudo o que foge de uma normalidade sem sentido, que nos é imposta, é foco de ódio – classes sociais, raças, etnias, religiões, opções sexuais e por aí afora. “A mais básica abertura a uma conversa se torna inviável quando os indivíduos estão fechados em seus pequenos universos”, diz Márcia. Desaprendemos a falar e a ouvir. Já não entendemos que somos capazes de constituir um cenário ético-político diferente e que podemos “tentar intensamente o diálogo que está tão esquecido e faz muita falta entre nós”.

"Tempos líquidos", de Tamar Matsafi
“Tempos líquidos”, de Tamar Matsafi

Esse vazio de autoridade, que torna o poder tão vulnerável e gera essa incapacidade de agir em conjunto, é um convite ao recrudescimento da violência. “Há algo assustador no ódio contemporâneo”, completa Márcia. Mas quem são mesmo os nossos inimigos nesse mundo tão fragmentado? O que fazer com esse medo, essa insegurança, essa ansiedade que nos invade e contamina como praga? Por que não conseguimos ver outras possibilidades? Vivemos a liquidez da vida, que escorre frágil entre nossos dedos, como falou o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman?

Perdemos a identidade? Já não pertencemos a nada?
Subjugados pelo mundo digital que nos dá visibilidade, mas nos esconde e nos acovarda, temos opinião sobre tudo. Provocamos, atacamos sem conhecimento de causa, e acabamos mergulhados em uma viagem egocêntrica e superficial. Essa exacerbação do individualismo é muito violenta. Já não analisamos, não escutamos, não paramos, não olhamos para o outro. E esse não olhar, que desconhece os limites necessários para a vida compartilhada e para a inserção dos indivíduos na cultura, nos transforma em presas fáceis da violência.

Lanceiros Negros – Por quê?

Quando reivindico inclusão, acessibilidade e respeito às diferenças, reivindico justiça e humanidade. Tudo o que faltou na triste noite de 14 de junho de 2017, na esquina das ruas General Câmara e Andrade Neves, no centro de Porto Alegre, em ação truculenta da Brigada Militar, comandada por um governo que não inclui, não acolhe, não respeita a diversidade, não entende o que é ser humano. Ou, melhor, não sabe do Ser Humano. Famílias da comunidade Lanceiros Negros foram arrancadas de um prédio que pertence ao Estado de forma violenta, covarde e desnecessária em uma noite fria, véspera de um feriado.

Sem condições de escrever sobre esta história de abuso de poder, prepotência, brutalidade e hipocrisia, busquei alguns comentários de pessoas que respeito. Poderia ter sido diferente? É óbvio que sim, mas quando o poder perde a lucidez, sobra só violência.

O retrato do descaso com o ser humano
Liza Cenci, Grupo Inclusivass – Clima tenso de guerra, tiros, bombas ao descer na rua da ladeira. Chego em casa e está cheio de fumaça. 70 Famílias despejadas. Frio na alma. Tristeza. Retrocesso.

Luis Eduardo Gomes, jornalista Sul21 – O José Ivo não curtia que eles estavam ali no Centro. Invasores dizia a nota do governo do Estado. E então mobilizou sua cavalaria e mandou tirar todo mundo de lá. Para preservar o prédio, dizia a nota, enquanto a Brigada arrancava a porta com uma caminhonete e destruía tudo por onde passava, incluindo as pessoas, suas esperanças, suas pequenas posses, suas noites quentes.

Jussara De Azeredo Sá, advogada – Importante esclarecer para quem está muitíssimo mal informado e defendendo o governador nessa reintegração covarde que acontece agora no centro de Porto Alegre. O imóvel é do Estado. O Estado é que moveu ação de reintegração de posse. Portanto, o Sartori. Um imóvel que estava abandonado há mais de doze anos! Ao menos se informem antes de defender o indefensável. Ah, e pra quem, na falta de argumentos e sensibilidade diz que se trata de uma “ocupação política”: sim! É uma ocupação política. O direito à moradia é uma questão política. O descaso com a moradia é uma questão política. A decisão de despejar as pessoas sem uma política social que garanta o direito à moradia é uma decisão política. A cidadania é uma questão política. Viver é um ato político.

Lu Vilella, Livraria Bamboletras – E ainda fazem “campanha do agasalho”. Hipócritas. Fascistas. Desumanos. Monstros.

Fátima Ávila – Ocupação Lanceiros Negros abriga famílias que perderam suas casas, muitas por conta do tráfico ou por terem perdido seus empregos. Cumpre um papel importantíssimo de dar moradia e dignidade a essas pessoas, papel esse que deveria ser do estado. O estado se nega a cumprir com seu dever e ainda por cima manda desocupar com violência policial um prédio que estava abandonado, jogando 80 famílias na rua em uma noite fria. Tem crianças, tem mulheres grávidas, tem GENTE lá dentro. São super organizados e acolhem pessoas, muitas vezes, que vieram do interior e não têm onde dormir ou o que comer para que consigam se reerguer. Que vida queremos pra nossa cidade? Que vida essas pessoas vão ter? Quem coloca a cabeça no travesseiro no quentinho da sua casa e não se preocupa com essa gente tirada à força e jogada na rua? E aí vem me dizer que querem uma cidade sem violência? Imaginem o trauma dessas crianças? Pra onde vocês acham que eles vão correr? Somos todos responsáveis por essa situação.
Leandro Selistre, designer – Hoje, 15/06, é o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa. Ontem à noite vários idosos foram agredidos na absurda atuação da polícia e do estado na Ocupação Lanceiros Negros. A justiça que mandou desocupar o prédio vai punir com o mesmo rigor essa violência?

Carmem Cecília Magalhães, professora – Meu Deus! Que atitude funesta desse governo Sartori. Tirando vidas do abrigo de um lugar que chamavam de lar e as jogando no relento da noite fria! O que vai testar nesse prédio abandonado e sem vida? Pedra e cimento onde antes ouvíamos vozes de crianças e bebês! Grande “obra desse governo”, um prédio fantasma igual ao coração seco e de pedra do governador Sartori. Qualquer obra que seja feita neste local após essa cruel desocupação será marcada pelas lágrimas dos que foram expulsos. A História jamais vai esquecer essa amaldiçoada ação desse governador. Ele será para sempre lembrado pelas lágrimas e pelo choro das crianças e bebês assustados e despachados na noite fria.

Jorge Correa, jornalista – Quando uma estrutura de tijolos e argamassa vale mais do que homens, mulheres e crianças, a civilização faliu. Cadê a humanidade?

Nina de Oliveira, jornalista – Quando a boate Kiss ardeu em Santa Maria/RS, naquele janeiro de 2013, levando mais de 200 almas, Cezar Schirmer era o prefeito da cidade e se eximiu de responsabilidades. Atualmente é o secretário de segurança do RS e, junto com o governador Sartori, autorizou o despejo de famílias, com suas crianças e velhos, da Ocupação Lanceiros Negros,usando de toda a força desnecessária da Brigada Militar, para mandar para a noite gelada os desvalidos. Os que vivem à margem desta sociedade desumana e desigual.
Para isto servem estes cidadãos. Para agir da maneira mais torpe, cruel e covarde. São gânsters. Andam em bando espalhando o terror. Ainda levaram preso o deputado do PT, da Comissão de Direitos Humanos, da Assembleia Legislativa, Jeferson Fernandes. Isto precisa ser denunciado. Todos precisam saber.

Daniel Soares, jornalista – Não é preciso dizer mais nada. Sartori e sua corja são criminosos. Comando da BM é capacho de um governador que atrasa salários, fecha escolas, quer vender patrimônio e ainda mantém um secretário de Segurança que afirma que a insegurança é imaginária.

Marco Weissheimer, jornalista – Chegando em casa agora da cobertura da ação de despejo da Ocupação Lanceiros Negros. Truculência é apenas uma das palavras para descrever o que aconteceu, entre ilegalidades flagrantes, como a ausência do Conselho Tutelar em uma ação contra famílias com crianças, cujo “crime” foi lutar por um teto para morar. Outra foi a notável falta de preparo e profissionalismo de integrantes da Brigada Militar, que abusaram da truculência e do desrespeito para com as famílias que estavam sendo despejadas do local onde viviam há um ano e sete meses. Para não falar da truculência com jornalistas que cobriam a operação. Mas não são necessários adjetivos. O melhor retrato sobre o que aconteceu é uma descrição sobre o que aconteceu na noite desta quarta-feira, no centro de Porto Alegre. Ao final do espetáculo de truculência e falta de compromisso social, os principais derrotados não foram os moradores da Lanceiros Negros, mas sim o governador José Ivo Sartori, o Judiciário e a Brigada Militar. Uma nota especial para a coragem do deputado Jeferson Fernandes, alvo de jatos de spray pimenta jogados à queima roupa em seu rosto e, especialmente, das famílias que resistiram e ousaram construir, no centro de Porto Alegre, uma alternativa de vida. Honraram o sentido do nome que escolheram para batizar esse espaço.

Dinorah Araújo, jornalista e atriz – Por que a Brigada Militar destruiu a biblioteca da Ocupação Lanceiros Negros? Destruir bibliotecas é uma ação usual dos governos autoritários, das ditaduras. Então, o que é o atual governo do RS?
Carlos Badia, músico – Programa Esfera Pública na Rádio Guaíba de POA sobre a questão da desocupação no prédio dos Lanceiros Negros está sendo extremamente esclarecedor. Rádio Guaíba dando show de jornalismo. Nenhum representante do governo do PMDB, mesmo convidado, se dignou a ir. Deve ser vergonha, pois como se está comprovando agora, a ação do governo através da brigada esteve repleta de equívocos jurídicos, que serão judicialmente investigados em profundidade a partir de agora.Sem falar na violência que foi injustificada, como se vê agora. Os índios que moravam na ocupação não puderam entrar no prédio hoje para pegar seus materiais de trabalho para vender no centro. Um equívoco atrás do outro. O governo do estado está sendo omisso nesse caso. Deveria dar uma satisfação à sociedade.

Adriana Franciosi, fotógrafa – Vergonha do Estado do Rio Grande do Sul. Ontem o governo Sartori, amparado pela decisão de uma juíza, que por sinal recebe auxílio moradia de 5 mil reais. desalojou 70 famílias com crianças na madrugada fria. A brigada Militar com sua truculência habitual contra pessoas de baixa renda, e até mesmo contra jornalistas, tirou as pessoas de um prédio no centro, o qual por 12 anos o Estado abandonou. E pior o governo Sartori, PMDB, faz isso sem ter um mísero plano para onde levar essas famílias.

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Ordens são ordens! E ponto? E basta? É isso mesmo?

Revendo “O dia em que Dorival encarou a guarda”

"O dia em que Dorival encarou a guarda", por ChristianLesage
“O dia em que Dorival encarou a guarda”, por ChristianLesage

Toda vez que me deparo com a intransigência e com pessoas que só se pautam pela burocracia, não são razoáveis e não conseguem ver a rigidez insensata das normas, salta da minha memória o genial curta-metragem “O dia em que Dorival encarou a guarda”, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart. E, mais uma vez, me dou conta do enredo incrível do filme que escancara o autoritarismo burro e a violência desnecessária.

Há algo de muito atual nesta curta história
Adaptação de uma passagem do romance “O Amor de Pedro por João”, lançado em 1982 pelo escritor Tabajara Ruas, o curta é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre (http://www.casacinepoa.com.br/. Fala sobre prisão, racismo, repressão, estupidez, mediocridade e outras tantas atitudes insanas, traduzidas pela frase “Ordens são ordens”. São 14 minutos frenéticos, que cruzam humor e violência em doses exatas, como escreveu o escritor Caio Fernando Abreu para O Estado de São Paulo, no dia 8 de agosto de 1986, ano do lançamento do filme.

Vi pela primeira vez no Festival de Cinema de Gramado. Desde então, virou filme de cabeceira, assunto de muitos debates e muitos encontros.

A história é absolutamente simples. Na prisão, o negro Dorival, em uma noite de muito calor, pede para tomar um banho. O pedido inusitado espanta e desencadeia uma rede de covardia, submissão, falta de discernimento e loucura dos carcereiros. A manifestação do desejo, apenas um banho, toma uma dimensão desproporcional. Do soldado ao cabo, passando pelo sargento e chegando ao tenente, autoridade máxima da carceragem, vai desvelando uma obediência cega, sem fundamento, covarde, e o medo do enfrentamento.

"O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe", por Christian Lesage
“O dia em que Dorival encarou a guarda. Ator João Acaiabe”, por Christian Lesage

A transgressão e a coragem de Dorival, que enfrenta a incapacidade da guarda e questiona a falta de argumento de quem lhe nega um banho, provoca a convocação de um bando de soldados para enfrentá-lo. Encurralados, eles só conseguem responder a partir do que recebem: autoritarismo e violência. Dorival é agredido ferozmente e fica jogado no chão da cela, sangrando.

É nesse momento que a ordem é maravilhosamente subvertida. O sargento, negro como Dorival, leva-o para o chuveiro. A água cai sobre ele como uma bênção. Ele sorri apaziguado. O instante, redentor, ganha ainda mais emoção e poesia quando o sargento acende um cigarro e coloca na boca do preso. A humanidade de um gesto fora da ordem salta aos olhos de todos nós e restabelece a esperança.

O filme
Direção: Jorge Furtado e José Pedro Goulart
Roteiro: Giba Assis Brasil, José Pedro Goulart, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Direção de Fotografia: Christian Lesage
Direção de Arte: Fiapo Barth
Música: Augusto Licks
Direção de Produção: Gisele Hiltl e Henrique de Freitas Lima
Montagem: Giba Assis Brasil
Assistente de Direção: Ana Luiza Azevedo

Elenco Principal
João Acaiabe (Dorival)
Pedro Santos (Soldado)
Zé Adão Barbosa (Cabo)
Sirmar Antunes (Sargento)
Luiz Strassburger (Tenente)

Prêmios
– 1º Prêmio Iecine (Governo do Estado/RS), 1985-86: Apoio à produção.
– 14º Festival do Cinema Brasileiro, Gramado, 1986 – Melhor Curta Nacional (dividido no Júri Oficial, sozinho no Júri Popular e no Prêmio da Crítica), Melhor Ator de Curta (João Acaiabe) e mais 4 prêmios regionais (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).
– Troféu Scalp 1986: Destaque do ano em cinema.
– 21º Festival de Cinema Ibero americano, Huelva, Espanha, 1986: Melhor Curta Metragem de Ficção.
– 8º Festival Internacional do Novo Cinema Latino americano, Havana, Cuba, 1986: Melhor Curta de Ficção.
– Exibido na mostra “Os 10 Melhores curtas brasileiros da década de 80”, no Cineclube Estação Botafogo, Rio de Janeiro, 1990.

 

Acessibilidade e inclusão para quê? Entre desabafos e constatações

Pra onde ir, por Tamar Matsafi
Pra onde ir, por Tamar Matsafi.

Alguém que me lê em algum momento já parou para pensar efetivamente nos banheiros de ônibus e de aviões? Acessibilidade zero para qualquer pessoa que tenha uma necessidade física especial. Eu, com 1m10cm de altura, quase não consigo me movimentar nesses minúsculos banheiros.

Mas não é só o nanismo. E as pessoas altas e acima do peso, como se acomodam nesses cubículos? E as que têm dificuldades de movimento ou de se segurar? E quem está em cadeira de rodas?  E as crianças?

A questão não é simples.

Mais acentos, mais passagens vendidas, mais lucro? É essa a lógica? Dane-se o conforto e a acessibilidade. Afinal todos precisam viajar e, se não há melhores opções, que assim seja. É uma hipótese. A sociedade do “quero sempre mais” é desumana. E poucos pensam em minimizar as dificuldades, que dirá resolver!

O dinheiro dos impostos pagos regularmente pelo cidadão para garantir algum serviço de qualidade vaza pela corrupção miúda e farta que percorre as veias abertas das administrações sem escrúpulos de muitos governos. E sangra muitas vidas, especialmente a vida de milhares de brasileiros que trabalham eticamente e dizem não ao ilícito, ao abuso de poder, ao dinheiro fácil.

Na sociedade do lucro acima de tudo, o outro só é considerado se contribuir para aumentá-lo e para o acúmulo de quem já tem em demasia. É o que temos. Gastos para atender uma demanda específica de quem tem uma dificuldade são vistos como desnecessários. Não dão “ibope” a ninguém. Conquistas? Só com muita luta. Algumas reivindicações voltadas para a acessibilidade esbarram no quesito verba. “Não está previsto”. “Não foi orçado”.  Estanca na burocracia. “Não podemos fazer sem autorização”. Morre no desinteresse generalizado. “O que eu ganho brigando pela sua causa?”

Enquanto isso, a sonegação de impostos corre solta, governos aprovam obras desnecessárias, fecham os olhos para o superfaturamento e o caixa dois, não fiscalizam, trocam benesses por votos, perdoam dívidas de grandes empresários em troca de apoio e fazem o mínimo pelas pessoas, o que custa muito pouco na maioria das vezes.

Enquanto isso, muitos políticos eleitos para cuidar dos interesses da população, que deveriam ser olhados e tratados como trabalhadores do país, acumulam regalias. Além dos salários polpudos, têm uma série de auxílios. Trabalham em causa própria. Criam projetos desnecessários. Transformam mandatos em empregos. Só pensam na próxima eleição para garantir mais quatro anos. Facilitam o trânsito dos corruptos. Enriquecem ilicitamente. E, como se não bastasse, ainda são tratados como seres especiais, fazendo uso do tal “foro privilegiado”.

Assim é o Brasil dos deitados em berço esplêndido que aí está, escancarado, para quem quiser ver.

Que dor é essa, por Tamar Matsafi.
Que dor é essa, por Tamar Matsafi.

Quando se fala de acessibilidade e do que pode ser feito efetivamente, de ordem prática, para incluir as pessoas, se cai no vazio.

Vou dar um exemplo simples, que diz muito dessa realidade.

Sempre que entro em um banco, público ou privado, e procuro um mínimo de acesso, não encontro. A única exceção é a agência do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, onde tenho conta, e que já comentei aqui. As pessoas que atendem são gentis, mas burocráticas. Não sabem o que fazer comigo, muito menos propor uma alternativa que me dê autonomia. A pergunta “Vocês têm um banquinho ou uma cadeira onde eu possa subir?” desnorteia. E a resposta, invariavelmente, é “só temos com rodinhas”. Não dá!

Às vezes, a situação é tão vulnerável, e tão humilhante, que a vontade é virar as costas e não voltar. De modo geral, as pessoas com alguma dificuldade física quando pedem ajuda são tratadas de forma infantil, como se fossem ignorantes, senis, tontas, seres de outra galáxia.

A solução? Neste caso específico, revelar as senhas para conseguir pagar uma conta, tirar um extrato, pegar algum dinheiro.

Volto à velha tecla, já batida: de que adiantam discursos e leis se ninguém é preparado para acolher a diferença? Se poucos conseguem ver que é possível andar na direção contrária da padronização e da burocracia? A melhor maneira de combater o espanto, que vem com o preconceito, é a informação, o conhecimento, a vivência. Mas ainda estamos longe disso, lamentavelmente.

Quando falo de padronização, burocracia, preconceito, falo desses pequenos descasos cotidianos, lamentavelmente já incorporados no dia-a-dia de muitos. Falo da intolerância absurda que provoca tanta violência, medo e morte. Falo do silêncio.

O episódio do senhor que tentava pegar uma calça e uma blusa em uma caixa de doações da campanha do agasalho, em um supermercado de Porto Alegre, é um exemplo triste desse tipo de descaso. A noite era gelada, mas ele foi impedido porque só a Defesa Civil poderia retirar as peças.  Assim funciona a burocracia.

Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.
Cores da diversidade, por Tamar Matsafi.

E o massacre violento em Orlando, nos EUA, na madrugada do dia 12 de junho, em uma boate gay? Tragédia motivada pela homofobia. “Não aceito, então mato”. Assim se manifesta o preconceito radical.

Foi um atentado contra todos os que lutam pela diversidade, pelo diálogo, pelos direitos humanos. Os que se calam e se recusam a ouvir a voz da comunidade LGBT, entre outras tantas vozes dissonantes, preocupados apenas em responsabilizar alguém rapidamente para encerrar o assunto, não querem o debate. Preferem o silêncio. E silenciar é consentir, deixando brechas para que outras formas de violência se manifestem.