Um livro a favor da vida

Restabelecer a relação médico-paciente. Humanizar as consultas e as internações hospitalares. Alertar para os riscos da medicalização. Advertir sobre os excessos da indústria farmacêutica. Os diversos questionamentos feitos pelo médico André Islabão em seu primeiro livro, Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro (Pubblicato Editora, 2019, 236 páginas), propõem uma reflexão profunda a respeito da saúde pública e do futuro da própria medicina. Uma das minhas alegrias é ter sido convidada pelo autor para escrever a orelha do livro que será lançado em Porto Alegre neste sábado, 19 de outubro, das 16h às 19h, na cafeteria La Croissanterie (rua Ramiro Barcelos, 1829, bairro Bom Fim).

Um livro a favor da vida

Surpresa, alegria, curiosidade. Assim reagi quando André Islabão me falou que estava escrevendo um livro. Por conhecê-lo e saber do seu jeito peculiar de conduzir as consultas e se relacionar com os pacientes. Logo pensei que não seria apenas mais um livro sobre a medicina, hoje tão contaminada por interesses econômicos que sustentam um vasto mercado com a medicalização do nosso cotidiano. Na primeira leitura, confirmei minha percepção. Nas releituras, me apaixonei pelas ideias e pela escrita literária do autor. Não é técnico. Não é científico. Não é pretensioso. É um livro simples, sobre escolhas, vida, morte. Humano.

Entre a estatística e a medicina da alma – Ensaios não controlados do Dr. Pirro fala de uma relação que precisa ser restabelecida, médico e paciente, hoje substituída por pílulas salvadoras, em nome de urgências para além da saúde. Já não podemos ser tristes, adoecer ou envelhecer. Já não se vê a pessoa – corpo, alma e fragilidades – em busca de acolhimento, uma palavra, um olhar. A felicidade e a juventude se impõem.

O primeiro livro de André Islabão é crítico, filosófico, corajoso. Necessário. Suas reflexões falam de nós que, muitas vezes, precisamos é de alguém que nos ouça, de um aperto de mão ou de um abraço. O autor reconhece os avanços da medicina, mas aponta para um perigoso endeusamento da tecnologia que pode nos jogar em uma existência a qualquer custo ao negar a inexorável condição humana – a finitude.

Acompanhei o processo desta publicação, com a parceria de Vitor Mesquita e Andrea Peccine da Costa, da Pubblicato Editora, e com José Walter de Castro Alves e Kixi Dalzotto, companheiros de trabalho e de vida. Aprendemos muito. E assinar a orelha deste livro precioso me enche de orgulho. Recomendo uma leitura sem pressa destes ensaios nada comportados, do “Dr. Pirro”, que servem para viver.

André Islabão nasceu em Pelotas (RS), no dia 29 de setembro de 1971. É formado em Medicina pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Reside desde 1992 em Porto Alegre (RS), onde trabalha. É “médico, mas também pai, músico, tradutor, compositor, artista e escritor” – como se define. Decidido a tentar reduzir o abismo crescente entre a medicina moderna e a visão mais holística do ser humano, acredita que a saúde da alma é tão importante quanto a do corpo. Pensando nisso começou a escrever livros, compartilhando suas ideias. Juntou o piano a suas ferramentas terapêuticas e passou a levar um pouco de alegria em forma de música a algumas casas geriátricas da cidade.

O bom espaço público

Ao pensar e repensar a cidade, sob o ponto de vista da qualidade de vida, da solidariedade, da segurança, da limpeza, da beleza, da inclusão e da acessibilidade, entre tantos outros aspectos, me inquieta também a maneira como tratamos o espaço urbano. Nem sempre agimos em sintonia com nossas críticas e nossos desejos. É grande o descontrole e a desumanização que percebo nas ruas, o que se soma ao evidente e cruel descaso dos governos.

Espaço urbano, por Tamar Matsafi
“Espaço urbano”, por Tamar Matsafi

Basta prestar atenção no lixo. As pessoas querem se ver livre do seu, como se não lhes pertencesse e pudesse, simplesmente, ser jogado em qualquer lugar. Não importa onde.

Basta prestar atenção na disputa dos motoristas por vagas para estacionar. A procura é desesperada. Se não encontram, colocam na calçada, sem o mínimo respeito pelos pedestres – mães com filhos nos carrinhos, pessoas em cadeira de rodas, cegos, idosos com dificuldade de andar, de bengala ou muletas. Não interessa.

Basta prestar atenção nas sinaleiras. O motorista que ultrapassa com sinal fechado, assim como o pedestre que atravessa a rua perigosamente. E um e outro reclamam grosseira e ruidosamente.

Basta prestar atenção no transporte público. Quando o ônibus para, é um entrar desvairado como se fossem perder a hora. Ninguém olha para ninguém. Dane-se quem tem uma dificuldade.

Basta prestar atenção nos parques, praças e ruas depois de uma festa popular. A sujeira que fica é chocante. Pouquíssimos entendem que os espaços são públicos e que também somos responsáveis por mantê-los limpos. Quem acompanhou um pouco do pós-carnaval na cidade viu o caos. Basta prestar atenção nos “mastodontes” que estão sendo construídos, revestidos de vidros espelhados, sem respeitar o entorno e a natureza, resultado de negócios entre empresários sagazes e governos que vendem a alma ao dinheiro fácil. Sem fiscalização.

clixo na rua
“Lixo na rua”, por José Walter de Castro Alves

Quem para e pensa que a humanização da cidade pode começar por nós? Transformá-la em espaço criativo, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver também é tarefa nossa.

As cidades são cheias de conflitos criados pelo poder público, pelo poder econômico, pela ganância humana. E são conflitos relacionados ao tratamento dado aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom ter consciência de que a responsabilidade é coletiva. Naturalmente, o exemplo deveria partir dos governos, mas a maioria assume sem projetos viáveis, ignora o que é público e só se queixa da falta de verba. Os empresários, por sua vez, só visam o lucro fácil. Acabam todos olhando para o próprio umbigo, exercendo o poder em benefício de muito poucos.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de prédios enormes, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem destruir seus centros históricos e sua memória, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta.

É evidente que as cidades são de quem nelas vive.

Lembro aqui o que diz meu amigo Vitor Mesquita, Pubblicato, idealizador do projeto URBE: “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas. A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar”.

 

Pensando e repensando a cidade

– Em tempo de eleições, o espaço urbano deve estar no centro das reflexões –

 

Com a missão de colocar em pauta algumas ideias, opiniões e interpretações, sugerimos aos que querem legislar e governar a cidade um olhar mais agudo e analítico para o ambiente urbano, sob o ponto de vista da inclusão e da acessibilidade, no sentido de repensá-lo em sintonia com as demais inquietações que mobilizam os moradores.

Porto Alegre e o Guaíba

O meio ambiente urbano, a qualidade de vida dos homens e o perfil das cidades na contemporaneidade são temas que ocupam o cotidiano das populações devido ao tamanho do descontrole e da desumanização que enfrentamos hoje nas ruas. Afinal, a quem pertence o espaço público? Quem são seus inventores e atores? As metrópoles são atualmente um bom lugar para se estar? É possível humanizá-las e transformá-las em espaços criativos, de compartilhamento, colaboração, acolhimento, celebração da arte de bem viver?

Vivemos em cidades cheias de conflitos criados por nós, habitantes, pelo poder público e pelo poder econômico, relacionados ao tratamento que damos aos lugares que ocupamos, muitas vezes desleixado, arbitrário, desordenado, sem critérios e sem respeito. É bom que se tenha consciência de que a responsabilidade é de cada um – do cidadão que joga lixo na rua, do empresário que constrói “mastodontes” por pura ganância, sem observar o entorno e a natureza, e de governos que vendem a alma ao dinheiro fácil, não fiscalizam e não fazem o que realmente precisa ser feito.

É evidente que os espaços precisam ser valorizados, requalificados e que é fundamental multiplicar essa discussão, difundindo a ideia de que para viver na cidade não precisamos de “mastodontes de janelas pequenas”, grudados uns nos outros, que desrespeitam as regras mínimas da natureza e da convivência saudável.

É evidente que as cidades podem crescer sem afogar seus centros históricos, sem se tornar impermeáveis, cinzas e insensíveis, sem abrir mão da inclusão, da brisa, da paisagem arborizada, dos horizontes amplos, das cores, da humanização.

É evidente que precisamos urgentemente de planejamento efetivo, uso honesto das verbas públicas, maior comprometimento das autoridades e do poder econômico, mais agilidade e menos burocracia, mais criação e menos ambição.

É evidente que a arte pode minimizar o impacto provocado pela dura paisagem concreta e que as cidades são de quem nelas vive.

Algumas ideias para o bom espaço público
Para o designer visual Vitor Mesquita, idealizador do projeto URBE, cuja revista conquistou o Prêmio Açorianos de Artes Visuais (Especial do Júri, 2013) e, por duas vezes, o Prêmio Abrigraf de Excelência Gráfica (2012 e 2913), a reflexão sobre o espaço urbano, no sentido de torná-lo mais criativo e convidativo ao convívio, está cada vez mais latente. “Cidade criativa é cidade compartilhada de dentro para fora. Fazer parte dessa transformação e experimentação é o que está no atual cotidiano das pessoas”.

Vitor destaca que os cidadãos estão preocupados com a sua cidade, com a revitalização de áreas deterioradas, com a ocupação de espaços. Prova disso é que o tema domina desde os noticiários do horário nobre e redes sociais até reuniões de moradores de bairros. “A palavra é pertencimento e o verbo é compartilhar.”

Nessa direção, o arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl, um estudioso das cidades e da vida das pessoas nos grandes centros, referência mundial em desenho urbano e espaços públicos, levantou 12 critérios para o Bom Espaço Público. Dizem respeito a todos nós e, claro, aos governos e aos empresários que, na maioria das vezes, ignoram o público – o urbano e o humano – e exercem o poder em nome do lucro e do benefício de muito poucos. E se os gestores urbanos procurassem ouvir o que diz Gehl e adaptassem algumas de suas ideias aos espaços sob sua responsabilidade?

1 – Proteção contra o tráfego
2 – Segurança nos espaços públicos
3 – Proteção contra experiências sensoriais desagradáveis
4 – Espaços para caminhar
5 – Espaços de permanência
6 – Lugares para sentar
7 – Possibilidade de observar
8 – Oportunidade de conversar
9 – Locais para se exercitar
10 – Escala humana
11 – Possibilidade de aproveitar o clima
12 – Boa experiência sensorial

Jan Gehl dá ainda cinco conselhos para cidades habitáveis, saudáveis, seguras e sustentáveis.

1. Parar de construir cidades pensando em “facilitar a vida dos automóveis”.
2. Fazer dos espaços públicos o foco dos projetos urbanos.
3. Projetar experiências multisensoriais.
4. Fazer com que o transporte público seja para todos.
5. Proibir o uso de automóveis.